A condição conhecida como útero didelfo, mencionada por Maya Braga, namorada de Arthur Urach e nora de Andressa Urach, é uma anomalia congênita rara que se desenvolve ainda na fase embrionária. Essa malformação é marcada pela presença de dois úteros e, em algumas situações, também de dois colos uterinos. Embora o caso tenha gerado bastante atenção, ele traz à tona questões importantes sobre saúde ginecológica e fertilidade. Cláudio Crispi Jr., que lidera o Serviço de Ginecologia do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, esclarece que essa alteração está incluída entre as malformações müllerianas, que impactam o desenvolvimento do sistema reprodutivo feminino.
Durante a formação do embrião, os ductos de Müller são responsáveis pela criação do útero, das trompas de falópio e parte do canal vaginal. Normalmente, esses ductos se fundem para constituir uma única cavidade uterina. No entanto, no caso do útero didelfo, essa fusão não se completa, resultando em dois úteros distintos e possivelmente dois colos uterinos: “É essencialmente um erro na formação durante a fase embrionária”, explicou o médico.
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Dentre as malformações müllerianas conhecidas, o útero septado é o mais comum, apresentando uma divisão interna na cavidade uterina. Em contrapartida, o útero didelfo representa uma fração muito pequena dos casos diagnosticados. Em circunstâncias ainda mais incomuns, a separação do canal vaginal pode se estender até a abertura vaginal externa ou ser apenas interna ou até mesmo ausente: “Estima-se que entre 3% a 7% das mulheres possuam algum tipo de malformação mülleriana; sendo o didelfo a mais incomum.”
Muitas mulheres podem conviver com um útero didelfo sem saber disso, especialmente quando ambas as cavidades funcionam normalmente. Nesses casos, o ciclo menstrual tende a ocorrer sem alterações percebidas e o diagnóstico geralmente ocorre em exames rotineiros ou investigações por outros motivos: “O problema surge quando um ou ambos os úteros não desempenham suas funções adequadamente. Por exemplo: uma mulher pode menstruar sem conseguir expelir o sangue corretamente. Isso pode ocasionar dores devido ao acúmulo sanguíneo no útero. Além disso, pode haver dificuldades para engravidar ou perdas gestacionais frequentes… Esses são sinais que podem chamar atenção. Contudo, geralmente no útero didelfo com dois órgãos funcionais e independentes, a paciente pode não ter nenhuma suspeita inicial”, afirmou o especialista.
Entre os sintomas que podem levar à investigação estão dificuldades para engravidar ou abortos espontâneos recorrentes e complicações durante a gestação. No entanto, ter um útero didelfo não implica automaticamente em infertilidade: “Geralmente, as malformações têm maior impacto na capacidade da mulher de manter uma gravidez saudável. Ela pode engravidar mas corre um risco maior de parto prematuro”, comentou Crispi. O risco de aborto espontâneo também pode ser elevado dependendo das características específicas do caso.
Mulheres com diagnóstico de anomalias uterinas devem continuar seu acompanhamento ginecológico regular. Contudo, as consultas antes da tentativa de gravidez são particularmente essenciais para avaliar a anatomia uterina e identificar possíveis riscos envolvidos. O especialista ressaltou que exames adicionais podem ser necessários para aprofundar o entendimento sobre a gravidade da anomalia e determinar qual acompanhamento obstétrico é mais adequado. A necessidade de tratamento varia conforme os sintomas apresentados e o histórico reprodutivo individual.
Nem todas as mulheres diagnosticadas precisam passar por cirurgia. No caso específico do útero didelfo, intervenções para unir as duas cavidades são consideradas complexas e raras: “Existem poucos relatos na literatura médica sobre isso porque seria necessário realizar uma reconstrução total do útero; conectar os dois órgãos que não se uniram durante a fase embrionária da paciente para criar uma única cavidade funcional. O resultado dessas cirurgias costuma ser insatisfatório”, explicou o médico. Por conta dos resultados frequentemente desfavoráveis desse tipo de operação, esses procedimentos são realizados apenas em casos excepcionais. Para condições menos complicadas como o útero septado, algumas pacientes podem ser tratadas via histeroscopia — um método minimamente invasivo realizado dentro da cavidade uterina.
Apesar dos riscos associados ao útero didelfo, muitas mulheres conseguem engravidar e levar suas gestações adiante com sucesso. O principal cuidado deve ser garantir um acompanhamento médico personalizado antes da concepção e ao longo toda da gravidez.
